Posted on sábado, 28 de julho de 2012 · Leave a Comment
Eram cerca das oito da noite. Joana fazia anos, 16 anos. O seu bolo de aniversário estava à sua frente. A sua irmã mais nova estava sentada ao seu lado. A respiração de ambas era forte e de repente tornou-se arrepiante. Ambas as respirações pararam por completo e deram lugar a gemidos, principalmente por parte de Verónica, a sua irmã mais nova; era normal estar assustada: tinha dez anos...
As respirações deram lugar a gritos. Os pais levantados de pé empurravam-se, gritavam e levantavam as mãos no ar fazendo gestos assustadores. Verónica era a única que chorava. Joana, pelo contrário, olhava fixamente para o bolo, sem expressão nenhuma.... já não aguentava aquilo. Pensava que já estava habituada, porque até já tinha previsto aquilo e foi por isso que não fez uma verdadeira festa nem convidou os seus amigos.
Levantou-se da mesa, dirigiu-se ao seu quarto e bateu com a porta. A sua irmã ficou, tal como os seus pais continuaram a discutir. A noite iria ser longa, ou talvez não... Tudo depende.
No seu computador portátil, cujo estava aberto sobre a secretária, via uma única mensagem de parabéns. As outras já teriam sido ''ditas'' cara a cara. A mensagem era da sua melhor amiga. A única que a compreendia; a única que sabia da sua história...
Abriu-a. Não era uma mensagem escrita, mas sim uma foto da sua melhor amiga com uma mensagem especial.
Leu a mensagem. Joana sabia que também ela, a sua melhor amiga, já previa o que ia acontecer. Não era nenhum dom que surpreendentemente ambas tinham. Aquilo acontecia todas as noites...
«Eu espero que tu encontres sempre uma razão para sorrir», esta foi a frase. Joana não conseguiu evitar e chorou, chorou muito. Mesmo depois de ter prometido a si própria que nunca iria chorar por nada deste mundo. Mas aquilo era diferente....
Voltou á cozinha para ver o que se passava depois de se ter feito silêncio. A sua irmã chorava, escondida debaixo da mesa. O seu pai, depois de beber mais uma lata de cerveja, atirou-a á sua mãe e agrediu-a.
- Por favor, faz alguma coisa! Não te deixes ficar. Defende-te mãe! Defende-te.... - Desfez-se em choros.
A sua irmã correu para quarto. A sua mãe chorava e não se conseguia defender. Joana não podia mais.
Correu para o quarto. Pôs roupas na sua mochila e outras coisas mais essenciais. Escreveu no espelho do seu quarto com o seu batom vermelho: ''amo-te mãe e Verónica. Voltarei... um dia, quando ele já não estiver aqui!''
Saltou pela janela do quarto e correu o mais que pôde. O seu coração batia a cem à hora. Deixar a sua irmã mais nova e a sua mãe desamparadas, era como que alguém lhe espetasse algo no coração.

O sol nasceu. Agora podia ver tudo ao seu redor. Estava praticamente na berma da estrada. Não se lembrava do que se tinha passado na noite interior, estava tonta e lembrava-se apenas de ter fugido de casa. Lembrou-se também da sua família e ficou preocupada, excepto com seu padrasto. Esse era um caso a eliminar! Joana não fazia ideia de onde estava, e como fora parar ali.
- Bem, a mochila está aqui comigo, o que explica que não fui assaltada. Mas... será que fui... violada?? - Pensou alto. Arrepiou-se e fez de conta que nada se tinha passado.
Caminhou cerca de duas horas, e agora estava mais distante de casa do que nunca. Parou num café e pediu para que lhe deixassem ir á casa de banho arranjar-se. Estava num estado horrível: olhos borratados do rímel que pusera no dia anterior, cabelo despenteado, olheiras horríveis...
- Nem sei como e que me deixaram pôr aqui os pés!
Cinco minutos mais tarde tinha descoberto como fora parar à berma da estrada. Examinou-se ao descobrir uma mancha de sangue nas cuecas... tinha sido violada.
Joana sentiu que o céu tinha acabado por lhe cair em cima, completamente. Fora violada por um desconhecido. Poderia estar grávida, ou pior: podia ter doenças terríveis como a Sida!
Deslizou pela porta da casa de banho até cair no chão.
- Mas... como? - Desfez-se em lágrimas. - Mas.... Mas.... Merda!! Co-co-como? - Gaguejou.
Joana estava decidida que por muito tempo não voltaria a casa, e que as ruas seriam o seu lar por muito tempo, era o que ela pensava que merecia depois do que lhe aconteceu.
Fazia de noite mais uma vez. O pequeno-almoço tinha sido a sua única refeição do dia. Sentia uma grande fome, mas a fome não era naquele momento o seu grande problema, nem sequer era um problema.
Naquela rua visualizava vários sem-abrigo. Antes, tudo isso lhe chocava, mas agora... já estava preparada, porque tinha a noção que se tinha que se habituar pois iria ser um deles. Deitou-se num canto. Sem nada que lhe cobrisse, sem nada que lhe amparasse, e adormeceu com a luz da fogueira ao longe, onde outros sem-abrigo estavam. Mas sem antes de rezar, e rezou muito. Rezou para que o seu padrasto não estivesse a bater na sua mãe e a culpa-la por ter fugido de casa. Rezou pela sua irmã mais nova, para que esta não estivesse a assistir a uma daquelas cenas. E rezou ainda mais para que a sua mãe estivesse bem, para que não perdesse a esperança de que um dia a sua querida filha voltasse para casa.
Joana tinha fugido de casa há duas semanas. O dinheiro tinha-se acabado há três dias. Todos os dias raparigas da sua idade saíam à rua e metiam conversa com homens. Depois seguiam com eles para outros locais. Faziam aquilo toda a noite, com diferentes homens. Eles eram sempre diferentes uns dos outros, mas quase sempre da mesma idade, na casa dos 40.
«A maioria divorciados, outros apenas infiéis. E uma pequena percentagem de tristes que nos procuram por algum consolo.» Explicou Sara, a nova amiga de Joana, que tinha conhecido na rua.
Joana estava sozinha e abandonada. Morava agora num pequeno apartamento. Um apartamento horroroso. Nem se atrevia a trazer os seus clientes até lá.
Deitada dentro da banheira cheia de água fria, pois se quisesse quente teria que pagar mais, refelectia nas coisas que tinha feito desde que saíra de casa. De cigarro na boca e dando lufadas de fumo no ar pensava na primeira vez que se tinha vendido, naquela noite mas quente da sua vida.
Fazia uns trita e sete graus, mas para ela eram cinquenta e cinco. Sara tinha-lhe apresentado dois rapazes, completamente desconhecidos, mas para Sara eram como amigos.
«Um era um rapazito, não mais de 18 anos. O outro, um homem, aproximadamente de 45 anos.», explicava a si própria. «Sara disse-me que era um pai doido por fazer o filho perder a sua virgindade. O rapaz foi com Sara, porque esta era mais experiente. O homem foi comigo. Contei-lhe a verdade; que não sabia com quem tinha feito sexo pela primeira vez, porque fora violada. Ele? Nem olhou... estava mais preocupado com o preservativo. Não queria 'apanhar' nada da miúda que fora violada... Admito: ele foi violento. Chorei. Doeu muito. Emocionalmente sim, doeu muito!! Nunca mais me apareceu à frente. Mas hoje Sara disse-me que ele me quer voltar a ver... Por mim tudo bem, desde que pague.
A todo? Deixa ver... uns trinta e cinco homens. Sim, porque sou novinha. E eles gostam disso. Porém fiz umas... setenta vezes. Sim, muitas vezes. Tenho 16 anos e fiz sexo cerca de setenta vezes em dois meses, mas lucrei pouco. Se for cara, eles não querem. Se for cara e tiver experiença e ser 'boa', como eles dizem, eles querem. Mas é preciso ter sorte!»
«Ele estão por todo o lado. Parecem um enxame. Eles tratam-nos como lixo.»
Hoje era outra noite. Joana não sabia a razão pela qual não conseguia voltar a casa. Na verdade já não se lembrava mais da sua família. Desejava que o homem já estivesse morto.
Depois de dois meses na rua, os papeis com a sua foto e com a palavra «desaparecida», ainda estavam por todo o lado. Joana sabia que muitos dos homens que lhe apareciam á frente reconheciam-na , porém ela era uma «pechinca» para ser desperdiçada. Era tratada assim pelas outras prostitutas. Elas eram ciumentas e invejosas, mas muitas delas surpreendentemente chegavam a ter pena de Joana, por esta se vender por tão pouco. «Coitada, até é capaz de se vender por meio kilo de maçãs.», Comentavam.
Mais uma noite na rua. Foi ter com o primeiro homem que viu encostado a um carro. Este mal olhou para ela, e entraram para o seu carro. O homem estava com a face tapada com um chapéu.
Chegaram a um motel. Joana tirou a roupa, tal como o homem. Descobriu que esse tal homem era o Sr. Rodrigues, o seu professor de Matemática. Este reconheceu-a logo, mas não fez caso! Agarrou-lhe pelos cabelos e forçou-a a joelhar. Depois de cinco minutos, atirou-a para a cama com grande brutalidade. Agarrou-lhe pelos cabelos de novo, e fez o que tinha que fazer. Joana foi obrigada a fazer posições vergonhosas para qualquer mulher.
Acabaram por fim.
- Porquê? - Gritou-lhe na cara.
- O quê? - Perguntou desentendido o seu ex-professor.
- Porque é que foste mau para mim?
Depois de alguma hesitação respondeu:
- Porque vocês merecem!
...................................................Continua...............................................
by Inês A.
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Poemas frases e histórias
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